Para escrever bem, leia como um escritor

Truques para escrever bem há aos montes pela internet. Muitos deles são bem válidos e dependem da dedicação do estudante ou aspirante a escritor para que deem certo. Mas será que todas essas dicas são as últimas “tendências” para aprender a escrever? Serão elas os melhores métodos?

A coisa talvez funcione de forma mais simples do que se imagine. Escrever não precisa ser um temor na hora da redação do Enem, do artigo da faculdade, do TCC ou de simplesmente redigir um e-mail ou relatório para o trabalho da firma.

Vamos aos fatos, então:

O professor da área de educação Frank Smith, da Universidade de Victoria, na British Columbia defende que a escrita exige um conhecimento muito mais específico do que normalmente se supõe. Para aprender a escrever é preciso ler de uma maneira especial.

Portanto…

Leitura é a base de uma boa escrita

Os “aprendizes de escritores”, como Smith nomeira, precisam assimilar a variedade das formas, que vão desde a grafia até a organização adequada dos gêneros de texto.

O exercício da escrita, aulas bem preparadas e orientações são importantes, mas não o suficiente para realmente se aprender a escrever. Se o futuro escritor/ redator precisa formular uma carta, precisa ler cartas, se quer redigir reportagens, precisa ler reportagens. Romance? Há vários para tomar como exemplos. Redação para o Enem? Que tal ler aquelas nota mil?

“Para aprender a escrever para jornais, deve-se ler os jornais. Livros-texto sobre o assunto não serão suficientes. Para escrever artigos para revista, deve-se folhear uma revista antes de fazer um curso que ensine escrever para revistas. Para escrever poesia, ler poesia. Para aprender o estilo convencional de memorandos de sua escola, consulte os arquivos de sua escola.”

Frank Smith

Cartas, mensagens de what’s app, que podem ser formais e informais, matérias de jornais, poemas, contos, trabalhos da faculdade precisam ser escritos de modo diferente, apresentam uma estrutura e um posicionamento de linguagem distinto, de acordo com seus propósitos. Só analisando e compreendendo essas diferenças é que se percebe essas nuances.

Em seu artigo, Smith cita momentos em que nos deparamos com uma leitura interessante e voltamos em um parágrafo para perceber melhor algum trecho que chama a atenção pela escrita, por algo bem colocado. Presta-se mais atenção ao toque do artista, no que ele narrou, algo que também gostaríamos de fazer e nos inspiramos. Isso é realizar uma leitura como um escritor.

Vozes de Tchernóbil e o Jornalismo Literário

Eliane Brum disse que “toda vida é habitada pelo extraordinário; não existem vidas comuns, apenas olhos domesticados”. Para a jornalista e escritora de Ijuí- RS, todos são passíveis de uma boa história a ser escrita.

Talvez a empatia, a retórica, a forma de como alguém as revele, faça o leitor entregar-se ao deleite da leitura e sustentar o interesse pleno ao folhear as páginas.

Enredos breves são encontrados diariamente no jornalismo diário. Qualquer jornal ou revista despeja uma sopa de letrinhas a cada momento do dia, se contarmos o modo online. O velho e bom lead, o guia de como configurar uma notícia de forma completa, caracterizado pelas perguntas O que? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê? constrói o organograma das pautas ditadas pelos veículos. Por outro lado, uma vez que alguém digite algo além do obrigatório, outras possibilidades podem surgir, principalmente de um jornalismo mais completo com os aspectos humanos e da vida como ela é. Para qualquer coisa acontecer, antes de tudo, há razões, vontades, necessidades, entornos, personagens principais, coadjuvantes e figuração no diário de qualquer humanoide dessa terra.

O jornalismo literário  mostra o outro lado da história, junta a realidade e a ficção, no que concerne a esta sua forma. Essa faceta literária, desempenha, além da missão de informar, a possibilidade de contar uma história que cause empatia e interesse ao leitor. O jornalismo que converge com a literatura traz uma história sem limite de tempo a se expor, sem a necessidade de contar o tamanho da página para averiguar se cabe tudo o que o redator deseja declarar.

Neste ano, o desastre de Tchernóbil completou 30 anos. Faz mais de 30 anos que um raio de 30km em torno da usina nuclear foi evacuada devido a contaminação que a explosão do reator 4 da usina nuclear de Tchernóbil causou na região e se afetou o mundo inteiro. Na semana do acidente, era possível identificar elementos radioativos até no Canadá.

Milhares de reportagens ilustraram o maior desastre nuclear da história, cheias de dados, números e artifícios do governo russo ao tentar esconder, por 18 dias, a realidade daquela tragédia. Entretanto, as histórias das pessoas que vivenciaram esse fato não foram devidamente ditas.

O povo saíu às pressas, deixando suas casas para nunca mais voltar. Outros se recusavam a acreditar naquilo que acontecia e ainda comiam dos alimentos que faziam crescer em suas hortas, das frutas silvestres e cogumelos encontrados nos bosques, afinal, quem era esse inimigo, essa radiação, que ninguém podia ver.

Gatinhos e cachorros eram deixados para trás sob protestos das crianças. Para os animais, a evacuação nem possibilidade foi. Balas de espingardas e revolveres lhes sobraram ao invés da proteção e acolhimento.

Para narrar esses casos a parte de dados numéricos e  factuais de Tchernóbil,  sensibilidade e empatia foram requeridos. Era imperativo ir além do lead. Foi imprescindível a conversa, o casamento com a literatura, com a narrativa dramática que a vida, por ser apenas vida, já carrega. O livro Vozes de Tchernóbil, da Jornalista e escritora Svetlana Aleksiévitch, traz, com sensibilidade e riqueza o relato e história oral detalhada das vítimas desse atentado científico ao mundo.

Nenhuma notícia de jornais, revista ou televisão, mesmo com imagens, foi digna de criar o poder de sentir o outro como as palavras do livro de Svetlana. Os depoimentos transcritos conseguem colocar o leitor dentro daquela área afetada, enxergar naquele caos de 1986, a dor de incompreender esse novo inimigo, que daquela vez, não usava suástica, mas era invisível e muito mais destrutivo. Um dos depoimentos mais comoventes do livro foi transcrito em uma reportagem especial da Revista Piauí, da editora Abril. Intitulado como “Uma solitária voz humana”, a descrição reverencia Liudmila Ignátienko, esposa do bombeiro morto, Vassíli Ignátienko. Ao contrário de citar só a dor, ela fala do amor, daquilo que a cercava antes da explosão.

Não sei do que falar… Da morte ou do amor? Ou é a mesma coisa? Do quê? Estávamos casados havia pouco tempo. Ainda andávamos na rua de mãos dadas, mesmo quando entrávamos nas lojas. Sempre juntos. Eu dizia a ele: “Eu te amo. Mas ainda não sabia o quanto o amava. Nem imaginava […] Às vezes parece que escuto sua voz. Que ele está vivo… Nem as fotografias me tocam tanto quanto a voz dele. Mas ele nunca me chama. Nem em sonhos… Sou eu que chamo meu marido […] Me proibiram de abraçar, de acariciar meu marido. Mas eu… Era eu que lhe dava apoio para se sentar na cama. Era eu que trocava os lençóis, tirava a temperatura, levava e trazia a comadre. Eu que o limpava […] Ele evacuava 25, 30 vezes por dia. Com sangue e mucosidade. A pele das mãos e dos pés começava a rachar. O corpo ficou coberto de furúnculos. Quando ele virava a cabeça, caíam chumaços de cabelo sobre o travesseiro. E tudo isso era tão meu. Tão querido… Eu tentava fazer graça: “É mais cômodo. Assim, você não precisa mais de pente” […] (ALEKSIÉVITCH, 2016, p. 16 a 21)

A própria obra, Vozes de Tchernóbil, traz, talvez sem intuito, uma análise comparada entre notícias e os depoimentos. No primeiro capítulo- Notas históricas, Svetlana mostra dados “palpáveis” da tragédia: número de mortos, quantidade de doenças oncológicas, compilações jornalísticas de publicações bielorrussas na internet.

De acordo com observações diversas, em 29 de abril de 1986 foram registrados altos níveis de radiação na Polônia, Alemanha, Áustria e Romênia; em 30 de abril, na Suíça e no norte da Itália; nos dias 1o e 2 de maio, na França, na Bélgica, nos Países Baixos, na Grã-Bretanha e no norte da Grécia; em 3 de maio, em Israel, no Kuwait e na Turquia […]

Projetadas a grandes alturas, as substâncias gasosas e voláteis se dispersaram pelo globo: em 2 de maio foram registradas no Japão; no dia 4, na China; no dia 5, na Índia; e em 5 e 6 de maio, nos Estados Unidos e no Canadá […]

Antes de Chernobil, havia 82 casos de doenças oncológicas para cada 100 mil habitantes. Hoje a estatística registra 6 mil doentes para os mesmos 100 mil habitantes. Os casos multiplicaram-se quase 74 vezes […]

A mortalidade nos últimos dez anos cresceu em 23,5%. Por velhice, morre apenas uma pessoa em catorze; a grande maioria dos óbitos ocorre entre adultos de 46 a 50 anos, idade perfeitamente apta ao trabalho. Nas regiões mais contaminadas, os médicos constataram que, de cada dez pessoas, sete estão doentes. Quando se visita a zona rural, não há como não se assustar com a extensão dos cemitérios […] (ALEKSIÉVITCH, 2016, p. 12 a 15)

Após as cifras, o livro organiza-se por monólogos, que dividem os depoimentos. A linguagem dá-se em forma depoimento, das falas que cada “cidadão de Tchernóbil” expôs nas audições da autora. Além disso, observações da autora quanto aos movimentos das vítimas- se silenciam por alguns instantes, se choram, se expressam dor com um olhar- combinam com o tom de “voz escrita” dos entrevistados e contribuem para uma construção de imagem das histórias. As representações, os detalhes e ações de cada monólogo levam o leitor ao momento da cena. Comparar simples linhas de notas de jornal com depoimentos complexos de tudo o que se vive em um ambiente de “guerra” contra um inimigo que nem rosto tem resulta em diferenças gritantes quanto a que tipo de informação é preciso focar. Nenhuma exclui a outra. Cifras mudam, aumentam, diminuem, mas não desnudam o amor, a dor, a perda e o espírito humano.

Em 2016 o programa Fantástico, da Rede Globo, realizou duas excelentes reportagens especiais sobre Tchernóbil, com entrevistas e imagens do local que provocam mais questões e curiosidades quanto ao que restou de tudo aquilo. Mas o tempo curto de televisão ou o número de caracteres limitados para uma nunca serão o suficiente para contar uma história de verdade, com detalhes, com léxicos que dão um soco no estômago, causam náusea, dor, indignação. Só um trabalho longo, com anos de entrevistas e composição foi capaz de iluminar o leitor para compreender, nas entrelinhas, o que partículas de Iodo 131 e Césio 137 causam, para sempre e por gerações na vida de pessoas.