Futuro do presente

Por Caroline Corso

— Sabe aquele cigarro com as bolinhas de estourar, que ficam na “piteira”?

— No filtro?

— É sim, no filtro. Eu gosto daquela marca Lucky Strike. Assim o gosto não fica tão

ruim na hora de tragar.

— Tá, mas então por que você fuma?

— Ah, é só para dar uma “baixada”, sabe?

— Baixada?

— Claro, é assim: o dia foi tenso, muito estressante e a ansiedade bateu com tudo….

Aí o Lucky dá uma “baixada” nos níveis, entende?

— Hmmmmm. Acho que sim. Mas e o Rivotril? Não dá no mesmo?

— Ah, o Rivotril? Este eu uso nas horas mais punks. Aquele sublingual. Desmancha

fácil. São só 0,25 miligramas.

— E este aqui é o de dormir, né? Lioram. Nunca tinha visto este nome.

— Sim, ele é milagroso! Só meio comprimido e… Pá! Capoto num sono profundo.

— Tá, e aquele outro aqui? É Bromo, ops, Bromidrato de Citalopran?

— Sim, para a ansiedade é espetacular. Ele é tranquilo, sem tantos efeitos colaterais.

E tu? O que tá tomando agora?

— Chá de camomila. Fico tranquilão. Também tem o de melissa, que surte o mesmo

efeito, e um chimarrão ou um cafezinho para doses de energia também pegam bem.

— Nossa! Nunca tomei. Parecem bem orgânicos. São bons?

— Fizeram efeito. São as coisas que a terra dá. Comprei em uma start up chamada

“Feira”, ali no Parque da Redenção. Dizem que é um negócio vintage, coisa dos

antigos.

— Bá, inovador!

Ao outro lado do rio

Por Caroline Corso

A ponte da velha cidade. Recém-construída. Na verdade, reconstruída. Finalmente a paz era verdade entre cada sobrevivente e a ponte, um elo para a união clamada de cada lado do rio.

Por dez anos o Rio Andes não teve pontes. Elas desapareceram no início da guerra civil. A água doce cortava a cidade no mapa geográfico. Mas também separava raivosos e ideologias.

Separava amigos e famílias.

Separava. O Rio Andes era um muro de Berlim brasileiro.

A cólera oriunda de cada morador era descendente da escura ignorância, era a intolerância a opiniões desarmônicas.

Mas então veio a ponte da reunificação, com alicerces e pilares fortes, para ninguém mais abatê-la. Era a primeira edificação depois da constante ruína. Enfim era hora dos encontros atrasados devido à ausência de passagem. Compromissos do passado seriam cumpridos.

Eu só desejava o abraço. Aquele forte e demorado. Fui a primeira a cruzar a ponte para o outro lado da cidade.

―Será que me reconheceria?

Eu usava vestidos floridos há dez anos. Hoje só uma velha calça azul que encontrei na rua e uma camiseta branca. Meu cabelo longo tinha sido cortado pelos soldados rente à pele e uma cicatriz avermelhada jazia em meu rosto.

Eu tinha medo que ele não me conhecesse mais. Eu era bonita e alegre. Eu cantava para ele dormir.

Acho que ainda sei cantar…

Fui a primeira a cruzar a ponte. Dever exercido. Seria a primeira a qualquer custo. E ele também. Era a nossa promessa.

Não olhava para frente. Mirava apenas meus pés descalços a cada passo. Não o enxergar no outro extremo da ponte seria desesperador.

―Estaria ele vivo? Havia resistido?

Lentamente caminhava. Meu olhar no horizonte só pairaria ao término do trajeto, no primeiro passo em terra que não fosse o concreto sob as minhas solas.

Não precisei chegar ao fim.

Eu só precisava daquele abraço.