A gramática, a língua padrão e o meu professor de português

O primeiro pensamento que aparece quando se fala em gramática é de um livro enorme falando sobre verbos, substantivos, adjetivos e tantos outros conteúdos estudados pela sintaxe. Não há uma reflexão além das diversas terminologias, regras de concordância e frases coordenadas e subordinadas. Quem passou por qualquer banco escolar teve que dedicar um bom tempo a decorar certas normas de como utilizar uma crase, fazer “perguntas” ao verbo para garantir se ele era transitivo direto ou indireto, entre tantas outras teorias conhecidas por qualquer um. A partir desses conceitos e didáticas, o desgosto pelas aulas de português costuma ser bastante frequente. Sempre pergunto aos estudantes e amigos qual é/era a matéria favorita deles na escola. Infelizmente, minhas amostragens revelam que a Língua Portuguesa não é/era a predileta. Apesar disso, é reconhecido o valor que essa disciplina tem, pois o uso da língua acontece em qualquer momento do nosso dia. É com ela que se estabelece comunicação entre seus falantes.

O teor do nosso idioma tem sido intensamente discutido nos últimos anos, principalmente depois das mudanças ortográficas e ideologias frente ao que se deve (ou não) ensinar aos estudantes sobre a gramática de língua portuguesa. Por isso, é imperativo que o professor dessa disciplina esteja preparado para os desafios que a sala de aula impõe frente a este trabalho tão importante. A discussão sobre a(s) gramática(s) começou a ser ampliada depois da controversa frase “nós pega o peixe”, presente em um livro didático distribuído em 2011 nas redes públicas de escola. Nele, era dito que não é errado falar daquela forma. Era demonstrada uma gramática sociolinguística nessa edição. O intuito do livro, a partir da orientação do professor, era mostrar outros parâmetros de estudo da língua, que envolve diversas formas de expressão, além da escrita. Era um teor rico e necessário para uma discussão sobre linguística na sociedade. No entanto, a falta de interpretação ou vontade de compreender essa definição ocasionou em uma polêmica que se estende até hoje em discussões, principalmente quanto ao que ensinar e o conhecimento que o professor precisa ter e trazer para a aula.

É indispensável que os alunos compreendam que há mais de uma gramática a ser conjeturada. Além de refinar nosso idioma por meio da língua padrão, é antes, necessário, pensar que todos têm uma gramática, mesmo que esta não se expresse como pregam as bíblias do imortal Evanildo Bechara. Luiz Carlos Travaglia, no livro Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática, traz diversos conceitos de gramáticas, que pesquisam e estudam a língua como objeto científico, muito além daquela que se firma apenas na norma culta. A forma como a língua se desenvolve nos bebês, como ela é internalizada, como as palavras se estruturam, seus mecanismos, e como a língua está presente e é heterogênea na sociedade são apenas alguns dos motes estudados e aprofundados a partir da gramática no seu todo. O professor deve, antes de tudo, ter o conhecimento da gramática como o todo e suas ramificações. É preciso ter essa noção de como ela realiza abordagens diferentes sobre uma língua e como relaciona-se com o social. Os estudantes, se deparando com a heterogenia da nossa língua, poderão perceber que língua portuguesa pode se integrar com outras disciplinas da escola, por exemplo.

O ensino da língua padrão é um papel fundamental da escola

O ensino da língua precisa ser modificado, principalmente no que diz respeito a separar os “bons” dos “maus” e o “certo” do “errado”. Compreendendo as diferenças entre as gramáticas, esses conceitos são relativos quanto ao tipo de linha gramatical a ser focado. Por outro lado, o papel da escola é “iluminar” o aluno, guiá-lo para o conhecimento. Este só é conquistado plenamente através de uma comunicação eficiente e compreensível por todos, realizada por boa fala e escrita, a partir de padrões linguísticos. Dessa forma, o papel e conhecimento do professor são fundamentais.

O educador deve ter domínio da gramática normativa. O trabalho de uma instituição de ensino, juntamente com o professor de línguas é fazer com que o falante domine o idioma de forma proficiente, adequada, para que expanda o uso da língua para diferentes esferas. A língua padrão alinha-se à gramática normativa. O modo adequado para qualquer pessoa conseguir escrever uma mensagem, ser entendido ao falar, ou compreender qualquer mensagem emitida em veículos de comunicação, artigos científicos, relatórios ou editais é realizado por meio da língua padrão. Assim, fica imperativo compreender que uma conjunção mal utilizada pode acarretar outro valor semântico e que não saber o significado de alguma palavra limitará a compreensão sobre algum tema. Por isso a importância da língua padrão e seu ensinamento proficiente. Se o professor deve ser aquele que promoverá esse conhecimento e não souber dominar a gramática normativa, o desenvolvimento das aulas será comprometido.

Segundo Sírio Possenti, no texto Por que (não) ensinar gramática na escola, a importância de saber a língua padrão é para que todos tenham o domínio de ler e escrever com destreza e acuracidade. O teórico defende que “os menos favorecidos socialmente só tem a ganhar com o domínio de outra forma de falar e escrever, desde que se aceite que a mesma língua possa servir a mais de uma ideologia” (POSSENTI, 1996). Assim, é lógico que há uma relação entre formas de expressão da nossa língua portuguesa, ao fato de ela a ela, como qualquer outra, ser heterogênea e viva, o que permite que possa se modificar a todo o momento. Mas dominar a padronização dela permitirá a ampliação do conhecimento. O professor de português deverá ser bem mais versátil e constituir desde já um caminho além das tabelas de conjugações e nomenclaturas.  A língua ensinada a partir do seu uso cotidiano, pelo texto, mostrando aos alunos o valor semântico de uma escrita constituirá um laço mais forte e lógico entre o idioma e nosso em torno. Caminhos existem, mas quebrar um paradigma didático já instituído há séculos é mais difícil.

 

REFERÊNCIAS

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas-SP: Mercado de Letras : Associação de Leitura do Brasil, 1996.

TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática/Luiz Carolos Travaglia. 12. ed. São Paulo: Cortez, 2008.