Ao outro lado do rio

Por Caroline Corso

A ponte da velha cidade. Recém-construída. Na verdade, reconstruída. Finalmente a paz era verdade entre cada sobrevivente e a ponte, um elo para a união clamada de cada lado do rio.

Por dez anos o Rio Andes não teve pontes. Elas desapareceram no início da guerra civil. A água doce cortava a cidade no mapa geográfico. Mas também separava raivosos e ideologias.

Separava amigos e famílias.

Separava. O Rio Andes era um muro de Berlim brasileiro.

A cólera oriunda de cada morador era descendente da escura ignorância, era a intolerância a opiniões desarmônicas.

Mas então veio a ponte da reunificação, com alicerces e pilares fortes, para ninguém mais abatê-la. Era a primeira edificação depois da constante ruína. Enfim era hora dos encontros atrasados devido à ausência de passagem. Compromissos do passado seriam cumpridos.

Eu só desejava o abraço. Aquele forte e demorado. Fui a primeira a cruzar a ponte para o outro lado da cidade.

―Será que me reconheceria?

Eu usava vestidos floridos há dez anos. Hoje só uma velha calça azul que encontrei na rua e uma camiseta branca. Meu cabelo longo tinha sido cortado pelos soldados rente à pele e uma cicatriz avermelhada jazia em meu rosto.

Eu tinha medo que ele não me conhecesse mais. Eu era bonita e alegre. Eu cantava para ele dormir.

Acho que ainda sei cantar…

Fui a primeira a cruzar a ponte. Dever exercido. Seria a primeira a qualquer custo. E ele também. Era a nossa promessa.

Não olhava para frente. Mirava apenas meus pés descalços a cada passo. Não o enxergar no outro extremo da ponte seria desesperador.

―Estaria ele vivo? Havia resistido?

Lentamente caminhava. Meu olhar no horizonte só pairaria ao término do trajeto, no primeiro passo em terra que não fosse o concreto sob as minhas solas.

Não precisei chegar ao fim.

Eu só precisava daquele abraço.

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